Acontecimentos sintéticos (ou como fabricar momentos de intensidade e de pura imanência na nossa existência)

Acordei meio assim, meio assado. Nem cru e tampouco cozido. Não sabia se era cansaço pelo trabalho presencial e três reuniões presenciais de assuntos densos tecnicamente, ou pela falta de sono —ou excesso né… Corpo pode ter sentido o cochilo às oito da noite e o sono até 01:00 AM— ou apenas olhado mesmo. Olhado é uma instituição baiana muito forte e muito importante dentre todas a miríade de metafísicas soteropolitanas/recôncavo baiano.

Quem sabe ? Sei lá que coisa deve ser essa kizumba momentânea.

O que sei é que quando tudo tá perdido, quando o mundo ameaça ruir numa aeon de energia psíquica penumbrosa e broxante, de marasmo de desejo de vida, o que resolve rapidamente é MPB.

Se a questão foi tratar como se fosse um atendimento de emergência, tipo SAMU, a melhor saida é Tom Jobim (album ” Stone Flower”, de 1970 ) ou Gilberto Gil (álbuns “Refazenda”, de 1975 ou “Realce”, de 1979) ou duas músicas do “álbum branco” de João Gilberto (“Eu vim da Bahia” e “Undiú”, a grande macumba em forma de canção do Jão)

Mas pensando que a coisa não é assim aquela dor lancinante, não é nada que deixe a pele viva e tensa diante do picadeiro. Então podemos pensar em apenas ministrar doses mais ou menos azuladas de bálsamo e deixar a cavalaria descansando.

Dessa forma, fui de Ivan Lins, de “Ivan Lins amarelo ouro” que é como gosto de chamar o álbum “Somos todos iguais nessa noite”, de 1977, lançado pela EMI ODEON e sob a batuta de Mariozinho Rocha na produção e arte da capa sob a responsabilidade do Mello Menezes.

Se “Somos todos iguais” já é algo inesquecível pela riqueza harmônica e presença de músicos geniais (Gilson Peranzzetta, Grupo Modo Livre, Lucinda Lins, Bras Limonge, Robertinho Silva, etc) temos nas composições talvez uma das duplas mais marcantes dos últimos 50 anos da MPB, Ivan Lins e Vitor Martins. É incrível que em um mesmo LP você tenha 40-50% das canções hinos da MPB que até hoje não perderam a majestade e nem nunca perderão.

Só sei que enquanto escrevo — e resolvo ao mesmo tempo problemas operacionais do meu trabalho, aqui, pelo teams— eu já estou no outro disco monstruoso de Ivan Lins, “Modo Livre”, esse de anos anteriores, 1974 pra ser mais preciso.

É uma begônia de desejos esse álbum, que mostra um Ivan Lins com um certo gesto, uma certa ação de respirar ar novo e expirar novidades, fruto da mudança de gravadora.

Ainda não é um disco onde a parceria com Vitor Martins é infinita mas, ambos já trazem a canção “Abre Alas”, que já mostra o que esses dois irão aprontar pelos próximos anos… A banda que acompanha Ivan Lins é qualquer coisa que beira o inacreditável, com a banda Modo Livre sendo formada por Wagner Tiso, Lucinha Lins, Robertinho Silva e de quebra, no backing vocal para além de Lucinha Lins, MPB 4 e Quarteto em Cy.

É coisa de doido e impossível de não dirimir qualquer tipo de arrepio funesto… Impossível não acalentar o corações e galvanizar a nossa vida, trazendo certa intensidade ou, ao menos, aquela dança que a gente faz sozinho durante a madrugada.

Só mais um detalhe de “Modo Livre”. Quem faz os arranjos desse álbum é um —ainda— desconhecido chamado Arthur…

Arthur Verocai.

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